Integrantes do Aliança por Floripa participaram de atividade acadêmica a convite de professora Rosemy da Silva Nascimento. Experiência amplia o debate sobre reinserção social para além da geração de trabalho e renda. Na próxima segunda-feira os zeladores irão participar de uma oficina no LABTATE.
Eles chegaram à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) para ajudar a recuperar seus espaços. Entre serviços de limpeza, jardinagem e pintura, os zeladores do Aliança por Floripa tiveram, nesta semana, uma experiência diferente: a convite da professora Rosemy da Silva Nascimento, do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH), conheceram o Laboratório de Cartografia Tátil e Escolar - LABTATE e participaram de uma atividade de aprendizagem. O convite surgiu do contato da professora com o grupo durante os trabalhos realizados no campus. A iniciativa aproximou os zeladores de outra dimensão da universidade, desta vez não como trabalhadores responsáveis pela manutenção dos espaços, mas como participantes de uma atividade acadêmica. “Quando vi essa parceria, pensei que não bastava eles estarem aqui apenas para cuidar da universidade. Eles também fazem parte dela. A UFSC é pública e precisa ser um espaço que essas pessoas possam conhecer, ocupar e usufruir. Por isso fiz o convite para conhecerem o laboratório. Queria que tivessem contato não apenas com a estrutura física da universidade, mas também com aquilo que ela produz em conhecimento”, afirma a professora Rosemy da Silva Nascimento. A experiência chama atenção justamente porque aproxima dois universos que, embora dividissem o mesmo espaço físico, até então ocupavam posições diferentes dentro dele. Os zeladores estavam na UFSC para trabalhar. Naquele momento, passaram também a vivenciá-la como espaço de formação. Fernando Norrie é um exemplo. Natural de São Paulo, formado em Publicidade e há cerca de 20 dias no Aliança por Floripa, ele pretende prestar vestibular no fim deste ano para voltar a estudar. A passagem pelo laboratório reforçou esse desejo. “Está sendo uma porta fantástica para eu voltar ao meu rumo. Fomos muito bem acolhidos e gostei bastante de tudo o que aprendemos. A Aliança e o Rumo Certo estão investindo em nós e ajudando nessa retomada”, conta. Para Paulo César, o contato com a sala de aula teve um peso particular justamente pelo período distante desse ambiente. “Foi uma aula muito importante para quem está afastado há algum tempo da sala de aula. Muita coisa a gente já não lembrava. Aprendemos, demos risada e foi muito bom para todo mundo”, relata. Pedro Gabriel, de 21 anos, está há três meses no projeto, e para ele, interromper por algumas horas a rotina do serviço para participar da atividade mostrou outra possibilidade dentro do próprio ambiente de trabalho. “Foi uma forma de educação durante o serviço. Uma atividade diferente, que ajudou a distrair a mente e trouxe conhecimento. Achei uma proposta inovadora”, afirma. A experiência coloca uma questão relevante para iniciativas dessa natureza: empregar é fundamental, mas não basta para romper ciclos de vulnerabilidade. A renda responde à necessidade imediata. A reconstrução da autonomia passa também pelo acesso a outros ambientes, relações e possibilidades. “Quando falamos em reinserção, o trabalho é fundamental porque devolve renda, rotina e autonomia, mas não pode ser o ponto final. O que aconteceu na UFSC mostra isso de maneira muito concreta. Eles chegaram para contribuir com a recuperação da universidade e, dentro dela, encontraram também espaço para aprender, despertar interesses e pensar em novos caminhos”, afirma o presidente da CDL Florianópolis, Eduardo Koerich. O episódio reforça uma dimensão do Aliança por Floripa que vai além da recuperação dos espaços públicos. Os zeladores não estiveram na universidade apenas como mão de obra responsável por sua manutenção. Foram convidados a entrar em um laboratório, participar, perguntar e aprender. E, no caso de Fernando, essa aproximação pode ter um próximo capítulo bastante concreto: voltar a ser estudante. “Já estamos articulando a parceria dele com um curso pré- vestibular e a inscrição dele para que ele tenha todas as condições de escrever um novo momento na sua vida, não apenas com moradia e trabalho, mas na concretização dos seus objetivos”, ressalta o presidente da CDL Florianópolis. Experiência terá continuidade com oficina O primeiro contato com o laboratório terá um novo capítulo na segunda-feira, 28 de setembro. Rosemy convidou os zeladores para participar de uma oficina de cartografia desenvolvida a partir de uma metodologia lúdica, que combina conceitos, histórias e atividades práticas. Cada participante irá confeccionar o próprio globo terrestre e poderá levar consigo a produção. A atividade abordará temas como os movimentos de rotação e translação, estações do ano e representação do planeta, sem exigir escolaridade prévia. Ao final, os participantes receberão certificado. “A participação do grupo mostrou que existe muito interesse pelo conhecimento. Alguns têm um repertório muito grande, mas, por alguma situação, não externalizam isso. A ideia é dar continuidade a esse estímulo”, explica a professora. O Aliança por Floripa O Aliança por Floripa é uma iniciativa que reúne CDL Florianópolis, Conseg Centro e Acif, além do poder público e sociedade civil em ações de zeladoria e recuperação de espaços públicos da capital. Os trabalhos incluem limpeza, capinação, jardinagem, pintura e outras intervenções de manutenção, executadas por zeladores que participam de programas de reinserção social. Além da melhoria dos espaços urbanos, o projeto busca criar oportunidades de trabalho, renda e retomada da autonomia para pessoas em situação de vulnerabilidade. Quem quiser contribuir com as ações do Aliança por Floripa pode apoiar a iniciativa por meio da chave Pix recuperaufsc@cdlflorianopolis.org.br. Os recursos arrecadados são destinados à continuidade das ações desenvolvidas pelo projeto.