Proteção animal também se aprende na escola
Educar crianças para o respeito aos animais é formar cidadãos mais responsáveis, atentos e comprometidos com a vida
Por Em Pauta SC
Publicado em 21/09/2026 10:30
Colunistas

Por Liandra Dall’Orsoletta | Médica-veterinária

 

Ensinar uma criança a respeitar os animais vai muito além de falar sobre cães e gatos. É

mostrar, desde cedo, que toda forma de vida merece cuidado, que nossas escolhas têm

consequências e que conviver em sociedade também significa proteger quem depende de

nós.

 

A escola ocupa um lugar privilegiado nessa construção. É nela que as crianças aprendem

não apenas conteúdos, mas também valores, responsabilidade e cidadania. Quando o

bem-estar animal é trabalhado de forma adequada à idade, situações do cotidiano se

transformam em aprendizado: oferecer água limpa, alimento, abrigo e atendimento

veterinário; não abandonar; não maltratar; respeitar os limites do animal; e compreender

que adotar exige compromisso durante toda a vida.

 

Esse aprendizado pode começar de maneira simples. Uma conversa sobre os cuidados

com o animal da família, uma atividade sobre as necessidades básicas de diferentes

espécies, histórias, desenhos, jogos e palestras interativas ajudam a criança a reconhecer

quando um animal está com medo, dor, fome, sede ou exposto ao frio e ao calor. Mais do

que decorar regras, ela começa a desenvolver percepção e empatia.

 

Também é importante ensinar que gostar de animais não significa fazer tudo o que se

deseja com eles. Abraçar, pegar no colo, montar, perseguir ou insistir em brincadeiras pode

causar desconforto e até provocar uma reação defensiva. Ao aprender a observar sinais,

respeitar o espaço do animal e procurar a ajuda de um adulto, a criança protege o animal e

a si mesma.

 

A educação ainda ajuda a enfrentar problemas que chegam diariamente aos municípios:

abandono, reprodução descontrolada, animais soltos nas ruas, acidentes, mordeduras e

maus-tratos. Nenhuma palestra, isoladamente, resolve questões tão complexas. Mas ações

educativas contínuas, conectadas às famílias e às políticas públicas, ajudam a prevenir

comportamentos que alimentam esses problemas. A criança leva o conhecimento para

casa, questiona práticas antigas e pode influenciar positivamente toda a família.

 

Esse tema ganhou respaldo ainda mais claro no novo Plano Nacional de Educação. A Lei nº

15.388, de 14 de abril de 2026, estabelece, na Estratégia 8.17, o estímulo a vivências que

promovam o reconhecimento, o respeito, a responsabilidade e o convívio cuidadoso com

todos os seres vivos, inclusive como forma de evitar a crueldade contra os animais. A

orientação reforça que a proteção animal não é um assunto isolado: ela faz parte da

educação socioambiental e da formação cidadã.

Para produzir resultados, porém, o trabalho precisa ser planejado. A linguagem deve

respeitar a faixa etária; o conteúdo deve ser correto, acolhedor e sem imagens traumáticas;

e as atividades devem aproximar o tema da realidade das crianças. Professores, famílias, profissionais da medicina veterinária e gestores públicos podem atuar de forma integrada,

cada qual contribuindo com seu conhecimento e sua responsabilidade.

 

Não se trata de acrescentar medo ou culpa à infância. Trata-se de ensinar escolhas

possíveis: pedir ajuda ao encontrar um animal ferido, não incentivar ninhadas sem

planejamento, manter portões e telas seguros, cuidar da higiene dos potes, compreender a

importância da vacinação e da castração quando indicadas e jamais tratar o abandono

como solução.

 

Uma sociedade que deseja reduzir os maus-tratos não pode agir apenas depois que a

violência acontece. É preciso prevenir. E a prevenção começa quando ensinamos, com

clareza e sensibilidade, que os animais sentem, possuem necessidades próprias e dependem de atitudes humanas responsáveis.

 

Ao levar a proteção animal para a escola, não estamos formando apenas crianças que

gostam de bichos. Estamos formando pessoas mais conscientes sobre cuidado, limites,

deveres e respeito à vida. Essa é uma aprendizagem que ultrapassa os muros da escola e pode transformar comunidades inteiras.

 

Referência legal: Lei nº 15.388 de 14 de abril de 2026

 

Sobre a autora Liandra Dall’Orsoletta é médica-veterinária, pós-graduada em medicina

felina, com experiência em gestão pública, bem-estar animal, Saúde Única e educação para a proteção dos animais.

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