Por Liandra Dall’Orsoletta | Médica-veterinária
Ensinar uma criança a respeitar os animais vai muito além de falar sobre cães e gatos. É
mostrar, desde cedo, que toda forma de vida merece cuidado, que nossas escolhas têm
consequências e que conviver em sociedade também significa proteger quem depende de
nós.
A escola ocupa um lugar privilegiado nessa construção. É nela que as crianças aprendem
não apenas conteúdos, mas também valores, responsabilidade e cidadania. Quando o
bem-estar animal é trabalhado de forma adequada à idade, situações do cotidiano se
transformam em aprendizado: oferecer água limpa, alimento, abrigo e atendimento
veterinário; não abandonar; não maltratar; respeitar os limites do animal; e compreender
que adotar exige compromisso durante toda a vida.
Esse aprendizado pode começar de maneira simples. Uma conversa sobre os cuidados
com o animal da família, uma atividade sobre as necessidades básicas de diferentes
espécies, histórias, desenhos, jogos e palestras interativas ajudam a criança a reconhecer
quando um animal está com medo, dor, fome, sede ou exposto ao frio e ao calor. Mais do
que decorar regras, ela começa a desenvolver percepção e empatia.
Também é importante ensinar que gostar de animais não significa fazer tudo o que se
deseja com eles. Abraçar, pegar no colo, montar, perseguir ou insistir em brincadeiras pode
causar desconforto e até provocar uma reação defensiva. Ao aprender a observar sinais,
respeitar o espaço do animal e procurar a ajuda de um adulto, a criança protege o animal e
a si mesma.
A educação ainda ajuda a enfrentar problemas que chegam diariamente aos municípios:
abandono, reprodução descontrolada, animais soltos nas ruas, acidentes, mordeduras e
maus-tratos. Nenhuma palestra, isoladamente, resolve questões tão complexas. Mas ações
educativas contínuas, conectadas às famílias e às políticas públicas, ajudam a prevenir
comportamentos que alimentam esses problemas. A criança leva o conhecimento para
casa, questiona práticas antigas e pode influenciar positivamente toda a família.
Esse tema ganhou respaldo ainda mais claro no novo Plano Nacional de Educação. A Lei nº
15.388, de 14 de abril de 2026, estabelece, na Estratégia 8.17, o estímulo a vivências que
promovam o reconhecimento, o respeito, a responsabilidade e o convívio cuidadoso com
todos os seres vivos, inclusive como forma de evitar a crueldade contra os animais. A
orientação reforça que a proteção animal não é um assunto isolado: ela faz parte da
educação socioambiental e da formação cidadã.
Para produzir resultados, porém, o trabalho precisa ser planejado. A linguagem deve
respeitar a faixa etária; o conteúdo deve ser correto, acolhedor e sem imagens traumáticas;
e as atividades devem aproximar o tema da realidade das crianças. Professores, famílias, profissionais da medicina veterinária e gestores públicos podem atuar de forma integrada,
cada qual contribuindo com seu conhecimento e sua responsabilidade.
Não se trata de acrescentar medo ou culpa à infância. Trata-se de ensinar escolhas
possíveis: pedir ajuda ao encontrar um animal ferido, não incentivar ninhadas sem
planejamento, manter portões e telas seguros, cuidar da higiene dos potes, compreender a
importância da vacinação e da castração quando indicadas e jamais tratar o abandono
como solução.
Uma sociedade que deseja reduzir os maus-tratos não pode agir apenas depois que a
violência acontece. É preciso prevenir. E a prevenção começa quando ensinamos, com
clareza e sensibilidade, que os animais sentem, possuem necessidades próprias e dependem de atitudes humanas responsáveis.
Ao levar a proteção animal para a escola, não estamos formando apenas crianças que
gostam de bichos. Estamos formando pessoas mais conscientes sobre cuidado, limites,
deveres e respeito à vida. Essa é uma aprendizagem que ultrapassa os muros da escola e pode transformar comunidades inteiras.
Referência legal: Lei nº 15.388 de 14 de abril de 2026
Sobre a autora Liandra Dall’Orsoletta é médica-veterinária, pós-graduada em medicina
felina, com experiência em gestão pública, bem-estar animal, Saúde Única e educação para a proteção dos animais.